segunda-feira, 26 de novembro de 2012

LIXO: VISTO POR OUTRO PRISMA


Por Marçal Rogério Rizzo
É comum afirmarmos que o lixo, ou melhor, resíduo sólido, é algo que não possui mais nenhuma utilidade. Ou, ainda, que é uma “coisa” que nos atrapalha, que é sujo e, em muitos casos, podre e cheira mal. Hoje, dar um fim ou uso adequado aos resíduos tornou-se primordial para a existência da humanidade. Por isso, este texto tem a pretensão de tentar mudar a visão sobre resíduos, pois já é comprovado que podem ser convertidos em algo útil para a sociedade.
Para afiançar que nossos resíduos não sejam simplesmente tidos como lixo é preciso, no entanto, vivenciar acontecimentos, experiências e exemplos de reciclagem, reutilização e redução. Para tratamos dos resíduos como tema, devemos ser lúcidos e sinceros, já que somos seus geradores e, assim, contribuímos para o problema. A sociedade atual enobrece aquele que possui um consumo elevado e, consequentemente, gera maior volume de resíduos. Fica evidente que abrimos mão da razão para mantermos o capitalismo de pé, mesmo que custe o fim da humanidade. 
Muitos de nossos governantes fingem que o problema não existe, no entanto deveriam abrir os olhos para ele e, claro, transitar por lugares que nem sempre os olhos gostariam de enxergar. Hoje, em virtude do aumento de consumo, o lixo demanda cada vez mais espaço, causando espanto ou, ainda, escândalo por na maioria das vezes estar fora do lugar adequado, ser feio e muitas vezes perigoso. É nas ruas, terrenos baldios e margens de rodovias que se vê a multiplicidade dos tipos de lixo.
Também é notório que cada cidadão deveria envolver-se na valorização dos resíduos. As soluções para o lixo não podem estar somente entrelaçadas nos discursos políticos em ano de eleições, mas, sim, nas ações, programas e viv~encias.
            A Folha de São Paulo (06/11/2012) trouxe a historia de uma catadora de materiais recicláveis da cidade de Mirassol (interior paulista), que cultivava o belo sonho de ter uma biblioteca particular, porém não possuía recursos financeiros para viabilizar a aspiração. Com o tempo, foi encontrando, no lixo, livros que eram descartados e os guardou. Recentemente, em conjunto com um grupo de catadores, pôde realizar seu sonho, porém não em sua casa, mas no prédio da associação de catadores, onde criaram uma biblioteca com mais de 300 títulos, um espaço para leitura, uma brinquedoteca, uma área destinada para discos e um brechó. Todos os objetos foram extraídos do lixo. Por aí, já observamos que nem tudo é lixo. A biblioteca não cobra pelo empréstimo dos livros; somente os títulos repetidos são vendidos a R$ 0,50 por livro. A renda vai para a própria associação. Vale salientar que o objetivo principal da biblioteca não é financeiro, e, sim, permitir que as pessoas que estão fora das escolas e das universidades possam ter a oportunidade de ler livros interessantes.
            Ainda no mesmo jornal (edição de 21/10/2012), um aposentado residente em Campo Grande (capital de Mato Grosso do Sul) há 15 anos vem enxergando o lixo de outra ótica. Começou a mobiliar sua casa com objetos que eram descartados. Encontrou cadeira, colchão, cama, guarda-roupas, penteadeira, cômoda e prateleira. Informou que montou uma bicicleta aos poucos, conforme foi achando as peças que lhes convinha.  Assegura não ter vergonha de abrir os sacos de lixo na busca do que pode ser reutilizado. Quando encontra roupas, sapatos e brinquedos, leva tudo para um orfanato.
            O que preocupa é que pessoas como estas deveriam ter o reconhecimento e sentimento de heroísmo, e não viver o drama da discriminação, uma vez que coletar resíduos ou mesmo garimpar os sacos de lixo é algo ambientalmente positivo, porém ainda não é bem visto pela sociedade de consumo. É preciso mudar o prisma!

Marçal Rogério Rizzo: Economista e Professor Doutor da UFMS – Campus de Três Lagoas (MS). E-mail: marcalprofessor@yahoo.com.br

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