quinta-feira, 15 de setembro de 2011

A união gay e o olho da mídia

Por meio de grandes ou de pequenos veículos, direta ou indiretamente, a mídia exerce incontestável influência na opinião individual e coletiva de um povo. De forma subliminar, imperceptível, mas eficaz, a mensagem vai fixando sua marca, mais talvez no inconsciente do que no consciente das pessoas.
A influência pode ser perigosa, a depender do senso crítico de que dispõe ou não o receptor para processar o que lê ou ouve. Desprovido do filtro da crítica, o destinatário da mensagem corre o perigo de introjetar falsos valores. Ou de reafirmar comportamentos antiéticos, até contrários às leis da natureza.
Infelizmente, a força midiática nem sempre se direciona à defesa de verdadeiros valores da vida. Sou leitor assíduo e articulista do O Diário. Este jornal tem prestado enorme serviço à sociedade. Não só na informação, como também na defesa dos valores da família, da sociedade, da política… Tem primado por uma comunicação construtiva.
Tenho que lembrar, entretanto, que, no dia 7 de setembro, dia em que a Terra de Santa Cruz celebrou 189 anos de independência, este veículo publicou em destaque a notícia do primeiro “casamento” gay realizado em Maringá. Segundo minha análise, foi infeliz a escolha do termo “casamento”. Não podemos negar que à primeira união civil entre pessoas do mesmo sexo, em Maringá, caberia figurar na pauta do dia. Atribuir-lhe, no entanto, o caráter de “casamento” já é desprezar a etimologia da palavra e a sua vasta concepção histórico-cultural-religiosa.

Para mim foi péssima escolha estampar na capa a foto de cerimônia erroneamente identificada como “casamento”. Não se discute que diversidade e pluralidade devem ser sempre respeitadas. Mas querer impingir um equívoco terminológico, atribuindo-lhe falsamente o conteúdo de outro conceito, isso é, no mínimo, desrespeitar o leitor.

 

Falo do O Diário porque infelizmente aconteceu aqui. Outros veículos seguem na mesma trilha. A poderosa Folha de S. Paulo, por exemplo, durante a Jornada Mundial da Juventude, em Madri, estampou foto de dois rapazes se beijando e, ao fundo, multidão de jovens com o Papa Bento 16. O destaque foi dado ao beijo, não aos milhões de jovens reunidos por outro motivo.
Entre vários acontecimentos a mídia escolhe (será por sensacionalismo?) sempre o que mais causa impacto. Com isso, vai formando uma mentalidade, um conceito de convivência, um modo de viver, uma interpretação e compreensão da vida e da liberdade pessoal que, muitas vezes, são distorcidos.
Hoje, costumes, hábitos, comportamentos, escolhas, são adquiridos muito mais através da mídia do que no seio da família, da escola ou da religião. Entendo que também à mídia cabe avaliar a força de que está investida. Como um componente público, tem o direito de noticiar fatos iguais ao acontecido em Maringá. Mas apresentá-lo como valor moral de aceitação unânime (ou, pelo menos, sem nenhuma ressalva) caracteriza desprezo às bases sociais da nossa concepção de humanidade.
Para parcela considerável da sociedade, casamento ou matrimônio só existe entre um homem e uma mulher. Só este evento gera vida e está conforme aos desígnios de Deus. Em Maringá houve cerimônia de união civil entre pessoas do mesmo sexo. Jamais poderá ser chamada de casamento.

Dom Anuar Battisti
Arcebispo de Maringá

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