segunda-feira, 6 de abril de 2009
O prefeito de Sarandi, Milton Martini, tem pela frente um desafio imenso para dar resposta às muitas demandas que permeiam os aspectos mais diversos do município, a começar pela própria infraestrutura básica – leia-se asfalto e saneamento. Aliás, pavimentação se coloca como prioridade e nessa condição se posiciona como o desafio mais imediato a ser vencido, até porque a solução do problema – ou esforço para minimizá-lo – foi enfatizado à exaustão durante a campanha eleitoral.
Mas bem sabe o prefeito, acostumado aos problemas locais como cidadão e mais ainda como gestor, por tratar-se de seu segundo mandato à frente do município, que obter os recursos necessários para pavimentar ruas e avenidas da cidade é tarefa para bem mais que quatro anos, pois não se conserta nesse período os estragos provocados por quase três décadas de crescimento urbano desordenado que deixou como saldo um cenário urbano marcado por todo tipo de problemas, dos quais a falta de asfalto é apenas um deles.
Contudo, é necessário colocar em perspectiva essa história não apenas para explicar, mas também justificar e quadro desafiador que se impõe ao gestor público comprometido com as expectativas do eleitorado e da comunidade em geral. Nesse contexto, é importante recuar no tempo, ao início dos anos 80, quando da emancipação do município. À época, Sarandi era tida como cidade-dormitório, expressão que definia uma ingrata condição: trabalhadores viviam no município, mas tiravam seu sustento em Maringá.
A modesta economia local era incapaz – e ainda é - de gerar os postos de trabalho necessários para atender a demanda. Desde então, o perfil econômico do município se redesenhou e Sarandi ostenta hoje um invejável mix de atividades comerciais, industriais e de serviços. Mas reside exatamente nessa expansão as causas dos muitos problemas de infraestrutura que desenham um quadro preocupante na periferia do município. O desenvolvimento econômico precipitou a ocupação desordenada da área urbana por razões diversas.
A rápida expansão demográfica do município tem explicações variadas, a começar pelo esvaziamento do campo como efeito residual do êxodo rural intensificado a partir da segunda metade dos anos 70 com a adoção da monocultura de grãos no campo em função das geadas que dizimaram os cafezais da região. Famílias de ex-meeiros, bóia-frias e pessoas que enxergavam no rápido crescimento da cidade a oportunidade de prosperar migraram para o município numa velocidade espantosa.
Não por acaso Sarandi manteve taxas de crescimento demográfico espantosas nos anos 80 e 90, a um custo social igualmente elevado, pois a ocupação dos limites urbanos se deu de forma desordenada, com o surgimento de uma infinidade de loteamentos sem a mínima infraestrutura, como asfalto, rede de esgoto e até mesmo eletricidade. Se houve ou não omissão do poder público nesse processo essa é outra história, mas é lícito reconhecer, no entanto, a dificuldade de se conter um crescimento populacional.
(olho)
“Não deve fugir da perspectiva do prefeito que enfrentar os problemas no atacado é mirar o fracasso. Ainda que deva consagrar atenção às questões básicas, como saúde e educação, é preciso dar resposta à percepção já amplamente reconhecida que a prioridade é infraestrutura básica”

Aliás, vale aqui uma observação importante: Maringá deu sua contribuição para a ocupação descontrolada do município nos anos 80 ao adotar uma política de exclusão social, que empurrou para suas cidades-satélites (Sarandi e Paiçandu) número expressivo de pessoas que, na percepção dos gestores públicos da época, representavam uma ameaça ao perfil elitista que a cidade ensaiava assumir nos anos seguintes. Eram pessoas pobres, órfãos do campo que começavam a se instalar na cidade, em cortiços e outros tipos de submoradias.
Não se protestava contra os veículos que recolhiam pessoas de abrigos ou remediadas em torno da rodoviária e, a pretexto de conduzi-las até a cidade de origem, as deixavam no limite entre Maringá e Sarandi. Em função disso, a cidade viu crescer logo em sua entrada um enclave de moradias precárias que sugeriam uma favela, algo que mais tarde se configuraria de verdade com a reconhecida ‘Favela do Hélio’, hoje inexistente, por conta de programa habitacional que tirou da paisagem urbana um cenário desolador.
Não se trata aqui de atribuir a esta ou àquela administração a culpa pelos muitos problemas que fazem de Sarandi quase um caso isolado no contexto regional, por conta de seu tamanho (mais de 100 mil habitantes), o que coloca a cidade em segundo lugar no ranking populacional no âmbito da Associação dos Municípios do Setentrião Paranaense (Amusep). Oportuniza-se o debate para se entender melhor as origens do quadro desafiador que se avizinha no horizonte de gestor municipal, às voltas com uma infinidade de problemas.
Não deve fugir da perspectiva do prefeito que enfrentar os problemas no atacado é mirar o fracasso. Ainda que deva consagrar atenção às questões básicas, como saúde e educação, é preciso dar resposta à percepção já amplamente reconhecida que a prioridade é infraestrutura básica, ou seja, asfalto e rede de esgoto, pois se reconhece que a concessão desse benefício não apenas atende a uma expectativa popular, mas contribui em muito para aliviar a pressão social que permeia o cotidiano da periferia.
Mas decididamente não se deve atribuir tão somente ao prefeito a responsabilidade de se obter recursos e executar as muitas obras que se fazem necessárias para colocar Sarandi em um outro patamar de desenvolvimento social e econômico. Nem a ele tão somente é justo que se atribua a missão de resolver os problemas mais emergenciais. Esse é um trabalho coletivo que deve ser abraçado pela sociedade civil organizada como um todo. Sem um esforço conjunto que se posicione acima de interesses ideológicos ou outro matiz qualquer, a tendência é que se perpetue os problemas.
Edivaldo Magro é jornalista

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